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O ‘boom’ turístico na zona de exclusão em torno de Chernobyl

O ‘boom’ turístico na zona de exclusão em torno de Chernobyl

O sucesso à escala global da mini-série televisiva “Chernobyl”, uma co-produção da HBO e da Sky UK, gerou um aumento substancial do número de turistas na zona do acidente nuclear que abalou o mundo há cerca de 33 anos, com epicentro na Ucrânia, então integrada na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). De acordo com a Reuters, os turistas querem sobretudo ver a central nuclear de Chernobyl e também passear na cidade-fantasma limítrofe de Pripyat, evacuada na sequência do acidente nuclear. A zona de exclusão de cerca de 2.600 quilómetros quadrados em torno da central nuclear, imposta desde 1986, é uma das áreas com maior nível de contaminação radioativa do planeta, mas esse risco não demove os muitos turistas que a têm visitado, inclusive portugueses.

A PBS Travel é a única agência em Portugal que comercializa um pacote de viagem-alojamento com excursão a Chernobyl. O preço mínimo é de 440 euros (para uma pessoa e na “época baixa”). “Catástrofe de Chernobyl, o pior acidente nuclear da história, mas a central e a cidade-fantasma onde se situa são hoje um destino turístico em crescimento. A 26 de abril de 1986, às 01h23m, o reator número quatro da central, a cerca de 100 quilómetros a norte de Kiev, explodiu num teste de segurança e o combustível nuclear ficou a queimar-se durante 10 dias, lançando para a atmosfera elementos radioativos que terão contaminado, segundo algumas estimativas, até três quartos da Europa”, destaca-se na brochura de promoção da viagem.

“Apesar de gravidade do acidente, passado 30 anos, a instalação do sarcófago metálico sobre o local do acidente torna a visita ao local bastante segura. Um dia na zona de exclusão é equivalente a duas horas de voo sobre o Atlântico, em termos de dose de radiações absorvidas. Ao saírem de Chernobyl, todos são obrigados a passar os controlos de radiação”, assegura-se. “O programa inclui visitas à nova cúpula, a aldeias abandonadas, ou alimentar siluros (grandes peixes de água doce) que vivem nas águas radioativas de um canal de arrefecimento da central. Mas o ponto alto continua a ser Pripyat, a cidade-fantasma situada a alguns quilómetros da central evacuada em três horas a 27 de abril de 1986”.

Regras de segurança
Contactada pelo Jornal Económico, Irina Nesterchuk, funcionária da PBS Travel, confirma que se verificou um aumento da procura pela viagem a Chernobyl após a estreia da mini-série televisiva na HBO Portugal, mas não tanto quanto esperariam. “Sim, temos tido muitos pedidos de informação sobre a visita e temos grupos que ponderam adicionar este ponto ao circuito na Ucrânia. No entanto, sentimos que o povo português ainda é bastante fechado a este tipo de experiências e destinos diferentes”, afirma Nesterchuk.

Quais são as perguntas mais frequentes que os interessados nessa viagem costumam colocar? “A questão de segurança será a principal e também o preço da visita, pois é elevado”, responde Nesterchuk. Os interessados são “sobretudo jovens entre os 25 e os 40 anos, homens e mulheres”. A principal motivação consiste na “moda de visitar locais diferentes” e também “a experiência radical, a questão histórica e o santuário ambiental que se estabeleceu na zona de exclusão”.

E quanto às precauções de segurança ao nível do vestuário e equipamento? “Para começar é necessário obter uma autorização das autoridades ucranianas para entrar na zona de exclusão”, salienta. “Existe um controlo muito grande na entrada e saída. Só é possível visitar o local com um guia credenciado. É obrigatório ter calçado fechado e roupa que tape a maior parte do corpo. Calções e saias curtas não são permitidas. Também não é permitido comer, beber e fumar, tocar em objetos e muito menos trazer algo para fora da zona. Para a segurança do visitante, este deve acompanhar sempre o guia. A visita inclui um almoço numa cantina na zona que é segura”.

A funcionária do PBS Travel diz que não costumam ocorrer desistências à última hora e descreve o programa da excursão: “O ‘tour’ parte de Kiev, a cerca de 130 quilómetros de distância. Começa às oito da manhã e o regresso está programado para as sete da tarde. Este é o programa mais vendido. No entanto, há a possibilidade de fazer um tour de dois ou mais dias. Existe um hotel na zona de exclusão onde os turistas ficam alojados, caso a visita dure mais do que um dia. Nem tudo está abandonado na zona e sim apenas a cidade de Pripyat, que é o ponto mais alto da visita. Muitas pessoas trabalham na base nuclear de Chernobyl e há pessoas que vivem lá”.

Em busca dos cenários televisivos
No início de junho, a Reuters informou que as agências que organizam viagens desde a capital da Ucrânia, Kiev, até à zona de exclusão em torno de Chernobyl, apontam para um aumento de entre 30% a 40% na procura. Muitas pessoas dizem querer visitar os cenários da mini-série televisiva. Os passeios guiados, em inglês, custam cerca de 90 euros por pessoa.

Sergiy Ivanchuk, gerente da agência SoloEast, disse à Reuters que a sua empresa já registou um aumento de 30% no número de turistas em maio, comparativamente com o mesmo mês no ano passado. As reservas para junho, julho e agosto aumentaram em cerca de 40% desde que a HBO começou a emitir a mini-série, referiu Invanchuk. Valores mais ou menos similares foram indicados por Yaroslav Yemelianenko, gerente da Chernobyl Tour.

“Muita gente faz perguntas sobre a série, sobre todos os acontecimentos. As pessoas estão a ficar cada vez mais curiosas”, realçou a guia Viktoria Brozhko, garantindo que a área é segura para os visitantes. “Durante toda a visita à zona de exclusão de Chernobyl, recebem-se cerca de dois microsievert, o que é igual à quantidade de radiação a que uma pessoa se expõe se ficar em casa durante 24h”, afirmou Brozhko.

Artigo publicado na edição nº 1995, de 28 de junho, do Jornal Económico


Fonte: O ‘boom’ turístico na zona de exclusão em torno de Chernobyl